[ múltiplo-quarto com camas desarrumadas ]

Publicado em Prosa às Julho 1, 2009 por Gleice Couto

Seja bem vindo ao meu quarto e sala. Não tente entender seus poucos cômodos. São pessoais, não-uniformes e difusos. As nuvens escuras não decoram o teto, nem são feitas de tinta. Chove de verdade aqui dentro. Enche e transborda. Enxurrada de sinceridade. Não me afogo, mas me esfrio. Estremeço. Acho que é o medo chegando novamente. E então, após a tempestade, as folhas no chão – escorregadias sob meus pés – encontrarão seu caminho pelo rio que escoa no corredor. E quando a garoa diminuir, a sombra gélida que reflete na parede se encontrará com o sol à leste, além da janela. Mas enquanto isso, faço e me desfaço em imperceptíveis partes desiguais. Incapazes de formar um todo… Sem seqüência fonética… Sem razão lírica… Apenas completando os ladrilhos imperfeitos da sala. Eu, um múltiplo-quarto com camas desarrumadas estou presente e inexistente na variedade de espaço… Vazio – interrogações apenas em forma de mobília antiga. O eco do meu soluço que ainda não passou pela garganta, ganha vida, cresce. E tudo volta a fazer sentido por cinco segundos. Quatro… Três… Dois… Um… Contagem regressiva para o mesmo começo. Pura simples vida. Talvez se eu mudasse os móveis de lugar… É por isso que moro aqui. Preciso me deslocar. Ajuda-me? É por isso que você está aqui. Expectador da minha única reforma desconfortável, faça mais do que me observar, me experimente, sou sensorial.

[ diálogo 08 ]

Publicado em Diálogos às Junho 25, 2009 por Gleice Couto

- Você sabe que não está sozinha, não? – Marcos a observa com cuidado.
Marina fica em silêncio.
- Sabe, não sabe? – ele insiste.
- Saber, eu sei…
- Mas… – incentiva a continuar.
- Mas às vezes… – Marina fala com certa dificuldade – Simplesmente não consigo evitar de me sentir sozinha.

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Quando escrevi esse rascunho, nunca pensei que faria tanto sentido cinco anos depois. Bizarro.

[ corpo-página ]

Publicado em Poesias às Junho 21, 2009 por Gleice Couto

Não espere por mim,
Estou esmaecendo.
O ânimo se foi com as cores –
Branco que era vermelho, mas que já fora rosa.
E cada expressão que faço ganhar vida é uma crítica –
Nunca controlei o modo como elas nascem,
Sempre cruzando a sutil margem do que posso, devo e faço…
Pergunto –
Por que, se já sabe a resposta que vai ter?
Estou aberta a consultas,
Pegue o livro e me folheie – não há nada mais a esconder nas entrelinhas.
Seus olhos já desnudaram cada parte-palavra do meu corpo-página,
Agrediram cada sentimento-letra da minha boca-texto.
E todo barulho invade minha mente fútil
Como sinos intermitentes… Delirantes…
Realidades virtuais que fazem sentido nesse exato momento:
O meu instante ilusório camuflado por loucura sadia,
Meu carrossel particular de emoções.
Excesso de boas intenções,
Prazeres inconsistentes,
Pressão exaustiva.
E boom!
Estoura!

[ seis portas ]

Publicado em Prosa às Junho 19, 2009 por Gleice Couto

     Sinto pinicar o chão frio por debaixo de minha calça fina. O modo como estou sentada me traz desconforto – minhas pernas cruzadas formigam; meus braços, enlaçados a elas, começam a ficar doloridos. Já estou nessa posição há bastante tempo. Ela não muda.
     Respiro com cuidado e me encolho mais um pouco. A temperatura não estava baixa, mas meu corpo reagia a estímulos que vinham de minha mente já congelada. Conceitos paralisados no meu tempo estático.
     A sala branca… Ampla… Iluminada… Limpa… Não me era mais estranha. Conhecia cada detalhe seu, cada defeito em sua parede irregular. As muitas portas que faziam parte daquele ambiente eram imponentes. Altas… Lisas… De madeira, mas pintadas de branco… E cada fresta… Cada farpa mal coberta pela tinta era perceptível pros meus olhos já acostumados com elas.
     Eram seis. E todas estavam fechadas. Nunca as abri. Nunca me permiti sequer tocá-las. Somente posso usar uma e não sei qual. Escolhas são difíceis para mim. Por isso, apenas observo… Examino atentamente… Enquanto os ponteiros do meu relógio já gasto continuam a funcionar.
     Então, tudo o que sempre existiu entre nós foi espaço. Apenas ar. Rarefeito… Ele falta no último suspiro. E não me reconheço mais. A dor chega lancinante enquanto projetam-se cenas do roteiro da vida que, por medo, não escrevi.

[ acredite! ]

Publicado em Blablabla às Junho 17, 2009 por Gleice Couto

Às vezes, parece que Deus está gritando comigo…

Eu te amo do jeito que você é! Acredite!

Mas eu não consigo escutar….