Arquivo para Maio, 2008

[ outras coisas mais ]

Postado em Blablabla em Maio 31, 2008 por Gleice Couto

Acho que vou desistir disso aqui.

E de outras coisas mais.

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You take my reason not to care.

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Fechado.

[ Temporariamente, a princípio. ]

[ Deus é bom, muito bom ]

Postado em Prosa em Maio 10, 2008 por Gleice Couto

Olho para relógio com certo nervosismo. Eram 13h50m e daqui a pouco começaria o horário de visitas. Percebi que o movimento de pessoas aumentava a cada minuto. Algumas chegavam com expressões de alívio no rosto, outras, eram mais de melancolia, e ainda tinham aquelas que nada diziam em sua face. Não sei em qual dessas categorias eu me encaixava melhor. Talvez uma mistura das duas últimas.

Já fazia um mês que ele estava na CTI e eu ainda não o tinha visitado. Na verdade, somente quando ele estava na enfermaria que eu o tinha visto – e apenas três vezes. A minha coleção de desculpas era vasta, porém a mais utilizada era que o horário de visitas coincidia com o do meu colégio, e como era ano de vestibular, não podia faltar. Balela, balela, balela. Era puro medo camuflado.

Eu não me sentia confortável com a situação, sabia que o modo que estava agindo não era o certo. Tinha tanta ciência disso, que até cheguei a fazer um bilhete para ele explicando os reais motivos. Lembro que minha mãe o entregou, e se limitou a comentar que ele tinha lido. Nada além disso – talvez estivesse decepcionado, não sei.

Então você pode imaginar como meu coração sobressaltou quando uma recepcionista avisou que o horário de visitas tinha começado. Esperei um pouco antes de me levantar e ir até ela. Canalizei minhas emoções e me revesti da melhor armadura: a da adolescente determinada.

Quando me senti pronta, fui até a recepcionista – uma alegre e contagiante mulher negra entre seus 40/50 anos, que com seu sorriso, conseguiu tirar um tímido meu. Entreguei minha identidade e fiz um cadastro. Perguntei onde era a CTI e ela me orientou qual caminho seguir.

Virei à minha esquerda e entrei em um extenso e largo corredor. Ao longo dele, havia salas grandes com vidros que davam para ver o seu interior. Reconheci uma delas: era a enfermaria onde o tinha visitado semanas antes. Parei por instantes e observei que a cama onde ele um dia deitou, estava vazia. Senti certo desconforto, porém não me ative a isso e continuei em frente. Assim que cheguei ao final do corredor, novamente virei à minha esquerda e vi a indicação de que mais adiante estava a CTI. Diminuí a velocidade dos passos à medida que me aproximava.

Quando fiquei de frente para porta, respirei fundo e, pronto, entrei. Tinha receio de desistir e ir embora se ficasse pensando muito. Uma enfermeira logo me abordou e perguntou quem eu estava visitando. Falei com ela, que me liberou mostrando onde ele estava. Aproximei-me do leito com cuidado, pensei que ele estava dormindo.  Fiquei ao seu lado por longos dez minutos, sem coragem de encará-lo de verdade. De repente, o chão parecia mais atrativo – até mesmo o programa de auditório que passava na tv se tornou interessante.

Enfim, ele notou a minha presença e virou o rosto. Ao me ver, mesmo por cima de todos os aparelhos, percebi que ele sorria. Eu sorri de volta – era tudo o que conseguia fazer naquele momento. Estava prestes a chorar ali mesmo.

Ele, então, toma a iniciativa e fala alguma coisa, que não entendi. Aproximei-me e pedi para ele repetir. Novamente não consegui entender. Perguntei para a enfermeira se podia tirar o balão de oxigênio dele por instantes e ela liberou. Foi o que fiz.

- Que bom que você veio… – agora eu conseguia entender o que ele dizia.
- Demorei, mas vim.
- Eu sabia que você viria… – falava devagar e com certa dificuldade – Falei isso com a sua mãe.
Apenas peguei em sua mão, incapaz de dizer qualquer coisa que fosse.
- Deus é bom, minha filha. – com um sorriso leve nos lábios, ele continua – Deus é muito bom.

E então, pela primeira vez desde que entrei naquela sala, o fitei de verdade, por alguns minutos. Sua pele fina sobrava em seu corpo, evidenciando uma magreza que outrora não tinha. Seus olhos pequenos, junto com sua feição sem expressão mostravam como estava cansado. Podia perceber algumas sutis contrações em sua face… Provavelmente estava sentindo dor. A morfina não fazia mais efeito como antes. Eu simplesmente não entendia como mesmo sob essas circunstâncias, ele conseguia acreditar no que dizia.

- Quando eu sair daqui, vou voltar para Igreja, de onde nunca deveria ter saído. – diz com o pouco de voz que ainda tinha.

Eu apenas sorri e disse que tinha que ir, pois mais gente queria vê-lo. Mentira, só a minha mãe estava no hospital, conversando com a médica, e tinha cedido o horário da visita todo para mim. A verdade, era que não agüentava ficar nem mais um segundo ali. Machucava.

Despedi-me e saí. Quando pus os pés fora da enfermaria, as lágrimas começaram a escorrer. Choro de pesar? Sim, também. Mas muito mais por me sentir impotente e fraca para encarar o que estava diante de meus olhos: ele estava morrendo.

Liguei para a minha mãe, falei que estava indo embora, e ela foi ficar com ele.

No dia seguinte, pela manhã, um pastor conhecido nosso foi ao hospital. Meu pai se arrependeu de seus pecados, confessou Jesus como seu único salvador, reafirmando sua fé. Naquele mesmo dia, à noite, seu coração parou de bater.

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Hoje, apesar de tudo, tenho certeza de que ele estava certo.

Deus é bom, muito bom.

[ poesia de amor ]

Postado em Poesias em Maio 4, 2008 por Gleice Couto

Não quero te escrever uma poesia de amor.
Não hoje.
Eu até poderia dizer como respirar fica difícil,
Mencionar como minhas mãos não sabem onde pousar,
Descrever como um simples sorriso dissipa o nervosismo.
E isso tudo apenas por você estar perto.
Eu também poderia narrar os meus pensamentos sigilosos,
Expor os sentimentos escondidos na gaveta,
Registrar por escrito palavras que quer ouvir,
E isso tudo apenas sobre você.
Mas não vou fazer versos para você ficar,
Quando, na verdade, você sempre esteve partindo.
Não vou organizar rimas para você me amar,
Quando, na verdade, seu coração nunca esteve onde deveria estar.
E o papel continua em branco, pois apesar de você ter me pedido,
Não vou te escrever uma poesia de amor.
Não hoje.

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Às vezes, é melhor esquecer, não é mesmo?