Arquivo para Janeiro, 2009

[ diálogo 04 ]

Postado em Diálogos em Janeiro 19, 2009 por Gleice Couto

Eu realmente não queria atender a esse telefonema – tanto que deixei o celular tocar dezenas de vezes. Eu sabia que alguma coisa não ia dar certo. Primeiro, eu estava irritada. Segundo, quando fico irritada, falo besteira. Terceiro, pra ficar irritada e falar besteira, é porque tenho convicção de que estou na minha razão. O que não significa muita coisa, convenhamos. A minha razão é por deveras egoísta, verdadeiramente egoísta. E, então, com cinco minutos de uma pseudo-conversa, o inevitável acontece.
- Tem certeza de que está bem, Bianca?
Uma pergunta que eu realmente não queria escutar e muito menos responder sinceramente. É o que faço ficando quieta.
- Bia?
Algumas pessoas pedem, não é mesmo? Praticamente imploram para você mostrar o que há de pior em seu ser.
- Por quê? – minha voz se arrasta.
- Por que o quê?
E essas mesmas pessoas fazem questão de testar sua pouca paciência.
- Por que você quer saber se tenho certeza de que estou bem?
Eu sabia que minha pergunta não fazia o mínimo sentido pra ele.
- Ahn… – hesita sem saber muito bem como responder – Seria porque sou seu amigo…?
- Não sei. Diga-me você.
Escuto ele respirando fundo do outro lado. Acho que também não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Mas o que posso fazer? Foi ele quem pediu. Solenemente, fico em silêncio, aguardando se ele um dia entenderia sobre o que estávamos falando.
- O que eu fiz de errado? – a pergunta sai como um suspiro.
Ah! Burro!
- Bia? – ele insiste diante do meu silêncio.
- O que você fez de errado? – repito a sua pergunta e completo em um tom mais baixo – Essa não é a pergunta certa.
- E qual seria?
- Não sou eu quem vai te dizer.
- Você também não ajuda. – ah sim, ele começava a ficar um cadinho irritado.
- É, eu sei. Nunca ajudo.
Debocho com vontade de machucar. Ok, eu sei que isso soa horrível, mas não tenho porque camuflar como me sinto.
- Nunca fiz nada por você. – continuo – Nunca te escutei. Nunca fui sua amiga.
- Eu não estou dizendo—
- Ah, está sim. – o interrompo.
É a vez de ele ficar calado. Bem que ele podia ficar ofendido e desligar o telefone. Pouparia mais aborrecimentos. Aliás, eu mesma poderia fazer isso, certo?
- Eu tenho que—
- Me desculpa? – ele não me deixa continuar.
Não faço idéia do que responder.
- Eu não sei o que eu fiz… – ele continua – Mas me desculpa?
Respiro fundo. Queria e não queria ter de dizer…
- Não.
- Não?
Percebo o choque em sua voz.
- Não. – repito.
Ele demora um pouco pra falar novamente, de modo frio.
- Não esperava por essa resposta.
- Não acredito… – rio sozinha, um pouco amarga.
- O que?
- Você não sabe o que fez, me pede desculpas e acha que tenho a obrigação de te desculpar?
- Na verdade, eu te pedi uma explicação, mas como você não me deu, a única saída que vi foi me desculpar.
Fala como se fosse tudo muito óbvio. Como destesto esse tom de voz. O idiota aqui é ele, não eu.
- Você realmente não percebe? – minha voz sai cortante – O problema não está no que você fez, mas no que você não fez. Você simplesmente aparece na minha vida, se torna meu amigo, confidente e, então, evapora por alguns meses sem dizer nada. Um dia, quando se sente um pouco sozinho me liga, achando que cinco minutos de conversa bastam para manter uma amizade.
- Eu estava ocupado. – fala entre os dentes.
- Ah, eu sei. Você me disse nos cinco primeiros minutos desse papo. – ironizo – Estava vivendo.
- Imagino que você também.
Olha! Ele também sabia ser mordaz. Que bonitinho!
- Claro. Vivi tanto que passei para um outro estágio.
- Outro estágio? – ele ri de leve – Sua atitude de agora não demonstra amadurecimento.
- Não disse que amadureci. – rebato – Só disse que eu mudei, e sinceramente, não acho que você se encaixa no meu mundo atual. Não acompanhou a evolução dos acontecimentos, entende?
Sinto-o vacilar e me surpreendo com o que escuto em seguida.
- Entendo…
A voz dele fica normal de repente, tão suave que eu estranho. Uma dorzinha de remorso começava a pinicar lá no fundinho do meu peito. Que droga.
- Estar presente faz parte da amizade… – ele volta a falar e completa – Mas perdoar também, não?
Ai, que raiva! Odiava quando ele dizia coisas com nexo. Odiava quando conseguia virar a mesa e me fazer sentir pior do que já estava. O que eu fiz? Tutututu. Imagino a reação dele quando escutou o som. Eu desliguei o telefone. É, na cara dele, sem dizer um tchau. Mal educada, não? Sei que você está pensando mais algumas coisas ruins sobre mim, entretanto, também sei que, com certeza, não me entende. Mas sabe de uma coisa? Não tem importância. Já desisti de me fazer compreender a tempos. Nada do que eu fazia ultimamente tinha sentido mesmo.
Olho para o telefone em minhas mãos por instantes ainda. Talvez, ele voltasse a ligar furioso, no mínimo. E, novamente, eu desligaria com um prazer maquiavélico – confesso que estava irreconhecível.
Mas, então, os minutos se passam e nada… E você sabe aquela dorzinha que eu comentei há pouco? Então, ela aumenta. Inferno. Isso não é legal. Porque existia algo chamado consciência? A minha doía… Só faltava gritar dizendo que eu tinha exagerado.
Percebeu que eu disse ‘exagerado’, né? Isso, eu tinha exagerado, mas não estava errada – quero deixar claro. Tinha meus motivos pra reagir desse jeito, como já disse antes – e sei que você até tentou, mas não entendeu (acho que também já comentei isso).
Bem, tudo o que mais queria naquele momento era acabar logo com a maldita dor e com os berros na minha mente. Pensando nisso e também na vontade de continuar a tradição de fazer coisas sem sentido, respiro fundo e ligo o telefone mais uma vez. Disco o número dele, já preparada pra ser nocauteada nesse segundo round.

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Sei que vai ter um dia que não vou estar disposta a ligar de volta.

[ frases ilustradas ]

Postado em Outros autores em Janeiro 15, 2009 por Gleice Couto
Céo Pontual

Céo Pontual

Palavras verdadeiras com a ilustração genial de Ceó Pontual.

Mais aqui: Frases Ilustradas 

[ aritmética versada ]

Postado em Poesias em Janeiro 12, 2009 por Gleice Couto

Dou o inteiro -
A soma, não a subtração,
Mas apenas recebo a metade,
Somente sinto sua terça-parte -
Parte de algo não completo…
Vazio vezes o infinito,
Que dividindo por zero…
O resultado é o mesmo:
Diferente do que quero,
Diferente do que anseio…
Meio ou zero vírgula cinco,
Raiz quadrada inexata
Elevada ao cubo
De uma vida abstrata.

Cansada de me doar por inteiro às pessoas e só receber a metade.

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-  Isso! Vai embora mesmo. É normal as pessoas fazerem isso comigo. A boba vai estar aqui amanhã mesmo, a boba vai sempre estar aqui! – explode. – Aí quando você quiser deixar o seu dia menos entediante, pode vir pro café da boba! Quando você não souber qual livro ler, pode perguntar pra boba!

Engraçado… Quando escrevi, não pensei em nada, nem em ninguém em específico…

Mas é exatamente assim que acontece.