Arquivo para Março, 2009

[ você me amaria mesmo assim? ]

Postado em Prosa em Março 29, 2009 por Gleice Couto

E se eu te dissesse que tenho medo de escuro? Que dormir de luz acesa me faz sentir segura? E se eu te dissesse que o silêncio me incomoda? Que a falta de palavras geralmente vem junto de ausência de comprometimento? E se eu te dissesse que meus sonhos não envolvem você? Que meus pesadelos constantemente ganham vida? E se eu te dissesse que não quero mudar o mundo?  Que não tenho pensamentos tão altruístas assim? E se eu te dissesse que a sua indiferença me irrita? Que espero de volta toda a atenção que dispenso a você? E se eu te dissesse que nunca consegui fazer um castelo de areia? Que o meu castelo de cartas nunca conseguiu passar do terceiro andar? E se eu te dissesse que não sou tão forte quanto você pensa? Que escondo minhas lágrimas junto a pérolas em minha caixinha de jóias? E se eu te dissesse que a felicidade está sempre um passo a frente? Que por mais que eu corra, ela parece distante? E se eu te dissesse que a solidão às vezes é amiga íntima? Que meu isolamento é uma busca consciente pela tristeza? E se eu te dissesse que exagero meus sentimentos? Que minhas reações não condizem com o que realmente acontece? E se eu te dissesse que minto? Que verdades camufladas fazem parte do meu dia-a-dia? E se eu dissesse que minha impaciência me sufoca? Que ser intolerante é apenas um reflexo dos meus defeitos nos outros? E se eu dissesse que a critica é uma constante em mim? Que ver os erros nos meus acertos é muito fácil?

Se eu te dissesse isso tudo… Você me amaria mesmo assim?

Se tudo isso que disse fosse verdade… Você acharia que te amo?

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Tenho medo de lhe dizer quem sou porque, se eu lhe disser quem sou, você pode não gostar e isso é tudo o que tenho. (…) A razão mais comum para não relatarmos nossas emoções é que não queremos admiti-las por algum motivo. Tememos que os outros possam fazer mal juízo de nós, ou nos rejeitem, ou nos castiguem por nossa franqueza emocional. Fomos ‘programados’ de alguma forma para não aceitarmos certas emoções como parte de nossa pessoa. Temos vergonha delas. Racionalizamos dizendo que não podemos relatá-las porque não seriam entendidas, ou porque poderíamos perturbar a relação tranqüila ou provocar uma reação violenta por parte do outro. Mas essas razoes são basicamente fraudulentas e nosso silencio pode produzir apenas relacionamentos fraudulentos. Sem abertura e honestidade, um relacionamento será construído sobre areia – não resistira ao teste do tempo e nenhuma das partes extrairá dessa relação qualquer beneficio.”
POWELL, John. Por que tenho medo de lhe dizer quem sou? Editora Crescer, 2006.

[ altista blasé ]

Postado em Diálogos em Março 27, 2009 por Gleice Couto

Uma provável conversa que deve ter rolado entre Morten, Magne e Paul do a-ha (em minúscula mesmo) antes de decidirem vir ao Brasil…

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Morten espera seus dois amigos e companheiros de banda em casa para uma reunião que marcara às pressas. Isso porque teve uma idéia fantástica (em sua opinião) na calada da noite. Como ter idéias que não sejam relacionadas à troca de seu guarda roupa costumam ser esporádicas, estava ansioso e tinha pressa. Para aliviar a tensão enquanto seus amigos não chegavam, aproveitava o tempo ocioso para admirar seu reflexo no espelho. Vez por outra fazia poses e sorria para si mesmo. Bizarro.
- Você é estranho! – Paul fala assim que vê o amigo.
- Mais que o Paul, até. – Magne completa.
Morten leva um susto.
- Ow! Vocês são ninjas? Entraram como?
- Interfone. Porta. Você. Espelho. Igual a atenção zero. – Mag explica.
- Ahn?
- Abstrai.
- Tudo bem, não importa. – deixa pra lá, não entendeu mesmo – O fato é que tive uma idéia muito boa essa madrugada.
Os dois esperam apreensivos.
- ‘Bora fazer uns shows no Brasil! – fala com um sorrisão de orelha a orelha.
Magne e Paul continuam olhando para o amigo com cara de demente, esperando continuação da tal idéia brilhante.
- O que acham?
- Acho ótimo, mas o que isso tem a ver com o seu insight? – Mag ainda tinha esperança.
- Esse é o meu insight. – Morten ainda sorria.
Magne olha para Paul pedindo socorro.
- Ok, Morten… – o mais sensato entra em ação – Isso nem chega a ser uma idéia, porque Brasil é o nosso quintal praticamente. Mas… Ahn… Como vamos fazer shows lá? Nem estamos em turnê, nem temos músicas novas, nem temos músicos de apoio, nem estrutura, nem—
- Você é muito pessimista, Paul! Veja bem… – se empolga – Não precisamos de músicas novas pra fazer show lá, podemos tocar as mesmas músicas de sempre, com exceção de Touchy e You Are The One, por favor. Não precisamos de muitos músicos de apoio, basta um baterista e um outro carinha com quatro laptops que damos um jeito. Além disso, meus falsetes garantem o show e, na ausência de voz, o megafone dá conta do recado. E pra que estrutura? Podemos aproveitar umas imagens de YouTube mesmo, com baixa definição. As pessoas vão lá para nos ver! O importante é o nosso carisma no palco!
- Nosso carisma? O meu, você quer dizer, né? Porque tanto você e o Paul não falam um ‘ai’ com o público.
- Eu não tô lá pra falar, sou guitarrista. – Paul se defende.
- Claro que eu falo com o público! – Morten também tira o seu da reta – Comunicação não-verbal, mas visual, entende? Cada sorriso meu, cada passada de mão no cabelo, cada ajuste no ponto no meu ouvido, cada quebrada de cintura… É um ‘oi’ para eles, percebe?
- Não, não percebo. Acho que nem eles percebem. Na verdade, no palco, você parece um altista blasé.
- Mas—
- Tudo bem, Morten. Liga não. ‘Bora pro Brasil assim mesmo… Sem músico, sem estrutura, sem produção e sem carisma, porque o que nos sustenta é a nossa música mesmo. – Magne sorri confiante.

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Quero deixar claro que a-d-o-r-e-i o show e que isso não é uma opinião negativa, apenas bem humorada! É que meu lado crítico às vezes se sobressai! ;o)

E a descrição perfeita do Morten de ‘altista blasé’ é de autoria de Luciana Freitas. Hahaha

[ escassez de vida ]

Postado em Prosa em Março 24, 2009 por Gleice Couto

Respiro fundo. Escassez de vida. Cruzo os braços e protejo-me do frio que escorrega sala adentro. Corrente de ar rasteira e silenciosa descobre meu corpo pouco a pouco. Carne trêmula e dolorida. Enquanto isso, estímulos incoerentes desenham contornos no espaço, colorem os hematomas das mentiras que mantenho. Meus pés úmidos tentam se firmar no piso antes seco. Agora, água por todo lado. Não consigo ver de onde sai, mas entra. Aumenta. Roupa encharcada. Levanto o rosto e acima de mim, apenas pontos brilhantes. Brancos. Ofuscam meus olhos e quando caem, gelados, queimam. Cicatrizes instantâneas. Ferida exposta pela nudez de sentimentos. A cada falta minha, um milímetro cúbico a mais. E então, em algumas horas, respiro água. Sufoco a abundância de morte em mim.

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[ Oh, but how can I speak of the world rushing by with a lump in my throat and tears in my eyes? Oh, have we come to the point of no turning back or is it still time to get into the swing of things? - A-ha ]

[ sofia ]

Postado em Prosa em Março 8, 2009 por Gleice Couto

Quando completei sete anos eu ganhei uma boneca da minha mãe. Foi a minha primeira boneca. É que eu sempre achei carrinhos mais interessantes, sabe? Brincar de casinha, de comidinha, de cuidar de neném era uma coisa que realmente me aborrecia. Isso era brincar de ser gente grande. Eu não queria isso. Se brincar de ser adulto fosse tão bom, os adultos não brincariam tanto de criança, como fazem.

Com os meus carrinhos, eu era o que tinha que ser: uma menina de sete anos. Era única a emoção de imaginar que meus carros estavam a toda velocidade pelo quintal da minha casa, passando por várias estradas da minha imaginação, conhecendo os lugares mais inusitados que eu poderia criar… Nossa!  Era uma aventura.

Com essa boneca, porém, mudei de idéia.

Sofia era linda. Não era que nem as outras bonecas que eu via as meninas brincando. Não era loira, não era magra, não tinha olhos azuis. Nada disso. Sofia tinha vida. Seus olhos escuros brilhavam alegria. Seus cachos negros brincavam de mola em seus ombros. Seu corpo de pano tinha movimentos quase acrobatas.

Não pense você que eu fazia papinha pra Sofia, nem que a chamava de filha… Nada disso. Sofia era minha amiga. Sempre estava no banco de passageiro nas minhas fantasias recheadas de peripécias nas rodovias da imaginação. Acompanhava-me em todas as minhas corridas de carro.  Mas com o tempo, essas aventuras ficaram cada vez menos freqüentes. Você sabe… Eu tinha que dar atenção pra ela, era minha melhor amiga. E atenção requer tempo. E, bem, eu passava horas conversando com ela. Sofia sempre foi uma boa ouvinte. E, acredite, era uma boa conselheira também.

O tempo foi passando…

Passando…

Passando…

Passando…

E quando percebi, eu completava 12 anos. E Sofia? Ela estava bem ao meu lado quando assoprei de uma vez só todas as velas. Fuuuuu! Nesse dia, eu ganhei outras bonecas, mas não liguei pra elas. Eu tinha Sofia. Quem precisa de mais quando tem o melhor?

Os ponteiros do relógio continuaram a girar…

Tick tock, tick tock, tick tock…

Era noite de Natal e eu já tinha 15 anos!  Não brincava mais de boneca, mas não abandonei Sofia. Já disse, ela era uma amiga, não somente um brinquedo. Ela fazia parte da família. Por isso, a levei pra festa na casa da minha tia. Todas as minhas primas estavam na festa. Eu não as via a muito tempo e foi muito bom conversar com elas – acho que começávamos a brincar de adultos.

Às vezes eu me ausentava e ficava a sós com Sofia, pois eu sabia que ela se sentia um pouco abandonada e deslocada ali. Eu saía de fininho para a varanda dos fundos e sentava nas escadas. Eu a deixava em meu colo. Arrumava sua roupa… Mexia em seus cabelos… Tudo para ela ficar confortável e bonita. Nem falamos muito essa noite. O silêncio já selava nossa amizade. Apenas ficamos olhando para o céu repleto de estrelas… Imaginando se elas tinham alguém com quem compartilhar o excesso de sua luz. Eu me considerava feliz por ter a Sofia pra compartilhar o excesso de vida em mim.

Sorri para ela. E tenho certeza que ela também sorriu para mim.

Foi nesse momento que tudo mudou.

- O que você tá fazendo aqui escondida? – uma das minhas primas se aproximou.
- Nada demais. – desconversei.
Ela me olhou desconfiada, mas não falou nada.
- Vamos entrar. Nossos primos chegaram. – me chamou.
- Ahn… – pensei por instantes e olhei para Sofia. Ela ainda sorria pra mim. – Vou depois.
- Por quê?
Ela olhou pra boneca e depois para mim. Sabia a resposta.
- Prefere ficar falando sozinha com essa boneca de pano velha, suja e feia?
As palavras não faziam o mínimo sentido na minha cabeça. Eu não estava ‘falando sozinha com uma boneca’. As palavras nunca são lançadas ao vento se são ditas para as pessoas certas. Quem estava ali era Sofia e ela me respondia sim. 
Aliás, responder… Uma coisa que não consegui fazer naquela hora.
- Essa boneca é ridícula! – ela continuou e pegou Sofia de meus braços.
Apenas a observei ainda sem ação.
- Não vê que ela está rasgada?
Mostrou seus braços com a costura desgastada.
- Não vê que ela está velha?
Mostrou suas pernas puídas.
- Os olhos dela são feitos de botão!
Um deles quase caiu nessa hora.
- O cabelo dela é uma bagunça!
Puxou vários nós em suas madeixas.

E então… Pouco a pouco meus olhos começaram a ver o que a maioria das pessoas vê: o superficial. Minha visão mudou de foco e tudo o que antes eu achava lindo, virara uma imagem feia. Esqueci das aventuras… Das conversas… Esqueci do que vivi e senti com Sofia. Minha mente estava ocupada com o que eu via diante de mim: uma boneca de pano rasgada, suja e feia. Era essa a realidade que eu não precisava ver. A realidade que eu abraçava com forças agora. A realidade que faziam as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Sofia.

Minha prima não entendeu nada e saiu assustada, me deixando sozinha novamente com a minha amiga. Minha amiga…

- Velha… Suja… Feia… – eu repetia as palavras da minha prima entre soluços.

Nunca fez muito sentido para mim o porquê do diferente intimidar as pessoas. Que mal havia em se amar uma boneca como Sofia? Queria tanto que todos a vissem como eu a via… Como eu a via antes de alguns minutos atrás. Queria que percebessem como ela realmente era quando a vi pela primeira vez: cheia de vida, com olhos brilhantes, cachos brincalhões e mobilidade de dançarina.

Talvez se os outros começassem a não dar importância ao que é apenas aparente, eu conseguisse voltar a vê-la como deveria. Amiga. Linda.

- Seja bonita! – eu chorava abraçada a ela – Seja bonita, por favor!

Por vezes eu a fitava, e seus olhos negros sorriam para mim ainda. Não era o mesmo sorriso, nunca mais seria. Eu começava a brincar de ser adulto.

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Alguém quer um pouco de melancolia aí? rs