[ seis portas ]

     Sinto pinicar o chão frio por debaixo de minha calça fina. O modo como estou sentada me traz desconforto – minhas pernas cruzadas formigam; meus braços, enlaçados a elas, começam a ficar doloridos. Já estou nessa posição há bastante tempo. Ela não muda.
     Respiro com cuidado e me encolho mais um pouco. A temperatura não estava baixa, mas meu corpo reagia a estímulos que vinham de minha mente já congelada. Conceitos paralisados no meu tempo estático.
     A sala branca… Ampla… Iluminada… Limpa… Não me era mais estranha. Conhecia cada detalhe seu, cada defeito em sua parede irregular. As muitas portas que faziam parte daquele ambiente eram imponentes. Altas… Lisas… De madeira, mas pintadas de branco… E cada fresta… Cada farpa mal coberta pela tinta era perceptível pros meus olhos já acostumados com elas.
     Eram seis. E todas estavam fechadas. Nunca as abri. Nunca me permiti sequer tocá-las. Somente posso usar uma e não sei qual. Escolhas são difíceis para mim. Por isso, apenas observo… Examino atentamente… Enquanto os ponteiros do meu relógio já gasto continuam a funcionar.
     Então, tudo o que sempre existiu entre nós foi espaço. Apenas ar. Rarefeito… Ele falta no último suspiro. E não me reconheço mais. A dor chega lancinante enquanto projetam-se cenas do roteiro da vida que, por medo, não escrevi.

7 Respostas para “[ seis portas ]”

  1. Escolhas são difíceis pra todos e medo não é novidade pra ninguém.

    Adorei esse, me identifiquei total.

    Beijos, ótima sexta!

  2. Ah, e o espaço não existe. Nem tempo!

  3. meupianoemverso Diz:

    “A dor chega lancinante enquanto projetam-se cenas do roteiro da vida que, por medo, não escrevi.”

    Nada pode ser pior do que sermos podados pelo medo. Tenho medo de sentir medo.

    Intenso.

  4. gle. que espacial esse texto. dor-espaço. paredes brancas.
    e essa frase final retumbante.

    tentei te ligar hj :( rs, amanhã tento de novo.

    bj!

  5. “sala branca… Ampla… Iluminada… Limpa”
    senti distância quando li essa parte. senti espaço

  6. Post lindo, como sempre. Suas palavras refletem bem o que você sente, espera e guarda.
    Gosto de ler sempre, mesmo que não teça nenhum comentário.
    Te adoro amiga, desculpe por todas as vezes em que “falhamos” na nossa sintonia que busca sempre a perfeição.
    Te quero sempre como amiga, te adoro, te respeito.

    Beijos.
    Saudades.

    Marcos

  7. hm. rs
    já estou sem graça. como quem se vê de calças curtas no meio de uma cerimônia. Mas parece que se eu for embora sem falar.
    Não sei. Não sou mto comentarista, mas eis que hoje estou comentadeira. rs

    tem mta coisa que não li aqui!
    mta coisa mto boa.

    esse é um rasgo e um baque
    achei incrível mesmo
    aliás, esquisito qdo a dor fica bonita e quase sempre não deixa de ser

Deixe uma resposta