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[ merecimento ]

Postado em Blablabla, Diálogos, Minha vida é uma novela em Julho 30, 2009 por Gleice Couto

- Vai tudo dar certo, Glei. Tenho certeza. Cara, você merece!
- Como você sabe?
- O que? Que tudo vai der certo? Porque é óbvio! Não percebe que—
- Não, não é isso. – interrompo – Como você sabe que eu mereço?

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Por que eu sempre faço essas perguntas complexas? rs

[ diálogo 08 ]

Postado em Diálogos em Junho 25, 2009 por Gleice Couto

- Você sabe que não está sozinha, não? – Marcos a observa com cuidado.
Marina fica em silêncio.
- Sabe, não sabe? – ele insiste.
- Saber, eu sei…
- Mas… – incentiva a continuar.
- Mas às vezes… – Marina fala com certa dificuldade – Simplesmente não consigo evitar de me sentir sozinha.

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Quando escrevi esse rascunho, nunca pensei que faria tanto sentido cinco anos depois. Bizarro.

[ diálogo 07 ]

Postado em Diálogos em Maio 18, 2009 por Gleice Couto

Roberto vai no táxi o caminho todo do aeroporto até sua casa murmurando palavrões. Isso incomodou tanto o motorista, que chegou a pedi-lo para parar. A resposta de Roberto não foi das melhores, como pode imaginar. O motorista achou melhor levantar o vidro que separava os acentos. Ao menos a viagem não foi muito longa.
Ele paga o motorista e ao sair do táxi volta a reclamar. Isso porque antes mesmo de entrar em casa, pressente uma movimentação estranha. Algumas luzes estavam acesas, tanto a da sala como uma do quarto de hóspedes no segundo andar. Três opções passam por sua mente.
Primeira… Sua casa foi invadida por sem-tetos desempregados que odeiam quem tem emprego e dinheiro (se bem que emprego, nem ele sabia se ainda realmente tinha um). Ou então por fãs loucas e ávidas por alguma cueca sua. Ou então por algum grupo ambientalista que quer fazer uma fogueira com sua coleção de calças de couro. Nessa última opção, ele treme. Roberto amava suas calças.
Segunda… Sua casa tinha sido colocada à venda. Alguma coisa nesse meio tempo aconteceu e ele perdeu tudo. Agora, não tinha mais lar. Agora, ele era o sem-teto desempregado repugnante que pensou segundo antes. Ele chega a suar frio. Respira três vezes lentamente para se acalmar. Roberto amava seu dinheiro e tudo que ele lhe proporcionava.
E tinha a terceira opção… A pior…  Mas também a menos esdrúxula.
Ele respira fundo, pois sabia o que provavelmente viria pela frente, e então abre a porta da frente.
- Beto! – ele escuta uma voz já familiar.
- Mãe?! – não quer acreditar quando a vê saindo do sofá e indo em sua direção.
- Até que enfim chegou! – ela o abraça com mala e tudo. – Estava com tantas saudades, meu amor!
Ele nem a responde. Era um pesadelo. Melhor, uma pegadinha. Onde estava a câmera?
- Mas o que faz aqui?! – não consegue disfarçar sua insatisfação.
- Pensei em te fazer uma surpresa! – ela nem liga, conhecia seu filho.
- E conseguiu, realmente. – fala não muito contente.
- Deixa disso, meu filho! – ela sorri e o abraça carinhosamente. – Vai dizer que não está feliz por ver a mamãe?
Roberto ri de leve ao escutar a palavra ‘mamãe’. Ela realmente o tratava como se fosse uma criança ainda.
- Claro que estou, mãe. – ele se rende ao abraço.
- Que bom! – ela o beija na testa – Acho então que não vai ficar chateado quando seu pai chegar amanhã!
- Como é que é?! – Roberto se afasta na hora e a encara.
- Coisa que você não é, é surdo, querido. – sua mãe ainda sorria.
- Isso não tem graça, mãe! – fala irritado e vai até o outro lado da sala, ficando de costas pra ela.
- Mas realmente não é pra ter. – ela mantinha a mesma postura.
Roberto bufa e reclama algumas coisas sem nexo por instantes. Tudo estava dando errado em sua vida. Sua carreira estava a um passo do fim, não tinha mais amigos, não tinha mais prazer em fazer nada que um dia teve, e pra completar, um quase-possível-futuro relacionamento tinha terminado antes mesmo de começar. Isso não era normal – era mais do que qualquer ser humano podia agüentar. O que mais faltava acontecer? Ah sim! Seu pai – aquele que o abandonou quando mais precisou dele, que o odeia e sente vergonha do próprio filho – estava prestes a ser seu hóspede! Lindo! Maravilha! A vida é bela.
Ele estava tentando sabe? Roberto realmente queria tentar canalizar sua raiva para qualquer outro lugar que não fosse a sua mãe, mas, claro, não consegue. Era ela que estava ali. Ele, então, explode.
- Quem diabos convidou vocês?! – ainda estava de costas pra ela – Aliás… Como souberam o dia da minha volta? O que fez vocês acharem que eu queria visitas?
- Roberto! – o repreende severamente.
Ele se vira e continua…
- Eu apenas quero ficar sozinho! Droga! Estou cansado! Minha viagem foi uma merda! – começava a perder o controle, mais ainda que o normal – Reuniões entediantes! Gente imbecil! Contratos estapafúrdios! Tudo deu errado! Absolutamente tudo!
- Chega! – Márcia se aproxima dele com autoridade.
- Chega!? – Roberto não liga. – Chega digo eu! Não agüento mais! Quero descansar! Dormir! Apagar! Tomar morfina! Qualquer coisa que não me deixe sentir emoção alguma! E sabe por quê? Porque não estaria sentindo tanta raiva nesse exato momento!
- Sua mãe está aqui e tudo o que você consegue sentir é raiva? – ela fala no mesmo tom que ele – É esse sentimento que causo em você?
Ele não a responde e fecha os olhos, tentando se controlar. Não era isso que ele queria dizer, mas não conseguia voltar atrás nas palavras que ganhavam vida em sua boca.
- Bem que o Dani me avisou! – Márcia completa, já num tom mais baixo, mas ainda assim duro – Você deve realmente estar com sérios problemas!
Ao escutar o nome do irmão caçula, toda sua tentativa de controle vai por água abaixo.
- Daniel? – não entende.
- Ele que me ligou dizendo que você precisava de apoio. – explica – Ele disse que você estaria estressado, tinha a ver com uma garota. Mas na verdade, foi a Sabrina quem nos—
- Não quero escutar o resto! – ele a interrompe, abrindo os olhos e não acreditando na milésima vez que seu irmão se intrometia em sua vida. – Me recuso! Como ele ousou se meter nisso? Aliás, não só ele, como todos vocês?
Pronto, modo ‘dramático’ ligado.
- Não sou mais adolescente! Sou adulto, completamente independente! Não preciso de ajuda de ninguém! Nunca!
- Ninguém vive sozinho, meu filho! – a pena começa a tomar o lugar da raiva que Márcia sentia pelas palavras que seu filho lhe dizia.
- Eu vivo e sempre vivi! – ele responde quase gritando – E não seria agora que isso mudaria. Sempre me virei e muito bem!
- Meu filho, você precisa—
- Você não sabe do que preciso! Nunca soube! – ele se aproxima mais um pouco dela – Tanto que está aqui. Se realmente soubesse, teria adivinhado que o que eu menos precisava nesse exato momento era de você e o papai, principalmente ele, cobrando posturas sensatas, sorrisos e palavras belas! Eu não o quero aqui! Ouviu?
- Roberto!
- Ele não vai entrar nessa casa! Ele—
Esse é o momento que Roberto sente um estalo forte e depois seu rosto virar e arder. Foi o jeito que Márcia encontrou de fazê-lo parar.
- Você… – ele tenta raciocinar – Me bateu?
- É o que parece.
- Doeu! – reclama.
- Era esse o objetivo. – Márcia o fita. – Claro, além de fazer você calar a boca. Estava histérico.
Roberto, sem querer, reconhece de onde puxou um pouco de sua ironia fina.
- Agora escute bem, mocinho. – sua mãe continua – Vê se coloca de uma vez por todas uma coisa dentro de sua cabeça grande e loira: eu e seu pai amamos você, assim como seus irmãos.
Roberto faz uma careta.
- Pare de agir feito um bebê. – ela lhe dá outro tapa, só que bem mais leve dessa vez.
- Mãe! Pára de me espancar! – dramatiza.
- Cala a boca! – Márcia volta ao sermão – Nós te amamos e sempre… Escute bem… Sempre estivemos e estaremos ao seu lado. Não importa o que aconteça, nem sequer importa o quanto feito idiota você aja conosco. Todos nos preocupamos com você e queremos o seu bem. Inclusive seu pai.
Ele não se atreve a dizer nada, não queria correr o risco de sentir a mão pesada de sua mãe de novo.
- Ah! Já ia esquecendo. Estou esperando pelo seu pedido de desculpas. – ela cruza os braços.
- Confessa, você se sente superior quando me humilho. – Roberto solta sem pensar.
- Pedir perdão não é se humilhar, meu filho. É aprender a crescer.
- Já disse, já sou crescido.
Márcia balança a cabeça negativamente.
- Um dia você vai estar no meu lugar e vai entender. – ela desiste.
- Está rogando praga agora?
- Claro que não, meu amor… – responde triste – Como faria isso com você?
- Já está fazendo. E só porque não quero e não vou pedir desculpas.
- Seu egoísmo te deixa cego, às vezes, e faz você entender tudo errado. – sua mãe suspira – Só fico triste ao pensar que quem vai te ensinar a realmente pedir desculpas seja a vida e não eu. E ela não vai ter o mesmo carinho que eu tenho com você… Não vai te dar uma segunda chance.
Roberto fica mudo.
- Eu realmente espero que no dia que você pedir desculpas a alguém com o coração, essa a pessoa o perdoe. – completa.
Ele continua sem resposta.
- Bem, não precisa se preocupar. – Márcia se afasta dele – Eu imaginei que a sua recepção seria assim mesmo e deixei Diogo de sobreaviso. Só vou pegar minhas coisas e vou pra lá. Aviso seu pai no caminho.
Roberto suspira ao escutar o nome do seu irmão mais velho, o sempre perfeito e apaziguador Diogo, já imaginando a lição de moral que receberia dele depois. Mesmo assim, não consegue se mover ao ver sua mãe subindo as escadas. Em instantes, ela já desce com uma única mala. Ele também nada faz quando a vê usando o celular para chamar um táxi.
- Qualquer coisa, você sabe onde encontrar seus pais. – ela sorri sinceramente pra ele.
Isso só faz a consciência de Roberto pesar mais ainda. Ele tinha gritado com a sua mãe, dito coisas horríveis a ela, e por fim, a expulsado de casa. E mesmo assim, ela estava ali, lhe oferecendo seu sorriso mais doce e sincero. Definitivamente, ele ia pro inferno. Tinha certeza disso. Que tipo de pessoa ele era?
- Vou esperar lá fora. – ela avisa.
Márcia lhe manda um beijo com as mãos e se afasta. Roberto fecha os olhos e só volta a abri-los quando escuta o barulho da porta batendo. Uma dorzinha bem fininha e lá longe começa a incomodar.
- Droga… – murmura – Não quero ir pro inferno.
Ele vai atrás. Quando a encontra, ela já estava na calçada, prestes a entrar no táxi.
- Mãe, mãe! – acena.
Márcia se vira e espera ele se aproximar.
- Esqueci alguma coisa? – pergunta.
- Não, não esqueceu nada…
Ela o fita.
- É que… – Roberto hesita.
Continua quieta.
- Não faz isso ser mais difícil do que já é. – Roberto reclama – Não me olha desse jeito.
- De que jeito?
- Com… – ele até engasga pra falar a próxima palavra – Amor.
- De que outro jeito olharia para o meu filho? – Márcia ri de leve.
- Tá, vamos acabar logo com isso. – Roberto suspira.
Ela espera.
- Me desculpa? – o pedido sai muito baixo.
Márcia sorri e levanta a mão para acariciar o rosto dele.
- Claro, meu filho. Não é o que sempre faço?
Roberto confirma balançando a cabeça e toma a iniciativa de abraçá-la. Márcia corresponde e ficam um bom tempo assim.
- Mãe, eu juro que se não fosse pelo pai, eu—
- Tudo bem, eu sei. Não tem importância.
- Eu tento, mas—
- Não, você não tenta perdoá-lo… – discorda docemente – Mas não vamos mais falar sobre isso. Não hoje.
Roberto balança a cabeça mais uma vez.
- Você ainda não me disse o porquê realmente de estar aqui. – fala a primeira coisa que vem na cabeça – Digo, não na minha casa, mas na cidade…
- Amanhã você vai saber.  – ela sorri – Agora tenho que ir.
Ele e a solta e, sem aquela dorzinha que há pouco o incomodava, a vê partir. Ao voltar pra casa, trata logo de tomar banho e se deitar. Era cedo pra ele dormir, mas se sentia cansado, não com sono, mas apenas queria ficar um pouco quieto. Era como se precisasse recarregar as suas baterias depois desse pequeno impasse com sua mãe de ‘boas vindas à realidade’. A viagem tinha sido curta, mas estressante. As reuniões tinham sido poucas, mas desgastantes. Só uma coisa tinha sido válido… Mas era melhor esquecer sobre isso.
Quem disse que consegue? Ele olha para o lado e vê o livro que Joana tinha te dado antes de viajar. Roberto se vira na cama e estica o braço para pegá-lo, com certa dificuldade consegue. Folheia o livro tentando achar a página que ela disse ter marcado pra ele começar a ler. É quando o seu celular toca.
- Inferno… – reclama.
Ele pega o celular na cabeceira da cama e vê que era Daniel.
- Bom ter me ligado. – fala assim que atende.
- Oi Beto, estava dormindo?
- Não, estava aqui em minha cama apenas pensando no porque de você sempre se meter na minha vida – responde na hora.
- Não entendi.
- Explicar-me-ei. – ironiza – Quatro palavras bastam: mãe, pai, minha casa.
- Ah, sim… – pensa por instantes – Já fiquei sabendo que não gostou da surpresa.
- Imaginei que o fofoqueiro do Diogo tivesse te ligado mesmo. Vocês têm um tipo de telefone sem fio que nunca vi igual! Se um dia ficarem desempregados, podiam tentar alguma coisa em um jornal de fofoca.
- Eu não tenho nada a ver com a mamãe aparecendo na sua casa. – Daniel se defende.
- Adivinha, Dani? – ironiza – Não acredito em você!
- Uma pena…
- E sabe por que não acredito? Simplesmente porque você com a sua incrível boca gigante falou com ela sobre a Joana!
- Sim, falei… Mas se você acha que a idéia foi minha de convidá-los e pedi-los parar ficarem aí, sinto te decepcionar. – debocha – Não sou como você, Roberto. Não me agrada vê-los sofrendo em sua companhia.
- Então—
- Eu não sabia de nada. Foi Sabrina quem os convidou e ela ofereceu a nossa casa, mas mamãe preferiu tentar fazer uma surpresa pensando que você estaria com saudades… Que pretensão a dela, não?
- Agora quem não está entendo sou eu. O que a sua mulher tem a ver com isso tudo? Porque—
- Você vai saber amanhã. – Daniel o corta.
- É a segunda vez que escuto essa maldita frase hoje. – reclama.
- Quer escutar a terceira?
Roberto suspira fundo. Daniel sabia que era o sinal para não provocar mais, então vai, finalmente, ao assunto que motivou a sua ligação.
- Bem, estou ligando pra te convidar pra almoçar aqui em casa amanhã.
- Por quê?
- Por que o que?
- Por que eu iria praí almoçar?
- Que horror, Beto! É um convite! – Daniel se estressa – Quero falar algo importante. É demais pedir a sua presença?
Roberto suspira de novo.
- Tá, que horas?
- Uma da tarde.
- Beleza, apareço aí.
- Ok, valeu.
- Até amanhã.
- Ah… Beto!
- Oi…
- Você tá bem? A Joana—
- Até amanhã, Dani. – não quer responder.
- Ok, até, então.
Roberto desliga o celular e fica quieto. Será mesmo que valia a pena alimentar essa situação? Ele suspira e sem pensar muito, apaga a luz para dormir.

[ diálogo 06 ]

Postado em Diálogos em Abril 12, 2009 por Gleice Couto

Os dois já caminhavam há quase trinta minutos. E, por todo o caminho, Bianca não parava de falar um segundo sobre os mais variados assuntos: desde culinária, passando por saúde e chegando à crise mundial. Simplesmente, não deixava Marcelo abrir a boca nem para concordar ou discordar – nem um ‘ai’ sequer. Na verdade, ela estava quase em pânico, então falava tudo o que vinha à cabeça. Ele, claro, percebeu, mas não estava tendo muito sucesso em interromper o monólogo de sua namorada.

O fato é que daqui há pouco chegariam ao metrô e não teriam mais como conversar em paz. Marcelo até sabia que aquele não era o momento perfeito, muito menos o lugar ideal para falar sobre o que ele tinha em mente. Ele já vinha tentando ter esse papo faz muito tempo… Programou jantares… Almoços… E nada de conseguir. Algumas vezes por culpa única e exclusivamente sua, mas a maioria por culpa de Bianca. Marcelo não imaginava o porquê de isso acontecer. Como ela poderia saber sobre o que ele queria conversar com ela? Ele não tinha comentado com ninguém a respeito disso…

Marcelo respira fundo ao ver de longe a entrada da estação. Tinha que ser agora.
“Bia…” – tenta interrompê-la.
Em vão.
“Sabia que dia desses vi no Discovery Channel que o acasalamento de um casal de pingüins Rrockhopper dura dois meses? E que a fêmea gera um único ovo?”
“Bia…” – tenta mais uma vez, agora mais alto.
“Ovo este… Olha como a natureza é única…” – ela ri nessa parte.
Marcelo a observa sem ação – de onde ela tinha tirado esse assunto? Bianca segue em frente com sua elucidação sobre o reino animal.
“Ovo este que vai ser incubado pelo macho, enquanto que a fêmea retorna ao mar para se alimentar!”
Não, ela não podia estar falando sério.
“Isso não é interessante? Eu sempre pensei que—”
“Bianca!”
Marcelo quase grita e subitamente Bianca se cala. Ele pára de andar, enquanto Bianca continua. Quando ela percebe que ele tinha ficado para trás, volta. Ao se aproximar, continua quieta e apenas o fita. Marcelo fecha os olhos e faz uma careta.
“O que foi?” – Bianca pergunta.
Ele abaixa a cabeça, tentando se concentrar.
“Pensei que queria falar alguma coisa, mas já que não quer, eu posso—”
“Mas eu quero falar!” – ele a interrompe bruscamente – “Quer dizer, se você deixar, né?”
Bianca morde os lábios, esperando o namorado continuar. Marcelo sabia que ela sempre fazia isso quando estava nervosa.
“Ok, fala então…” – ela diz sabendo que não tinha mais como fugir.
Ele suspira.
“Fala…”
“Calma! Estou tentando achar as palavras certas.” – Marcelo se justifica.
Bianca concorda com a cabeça.
“Sei…” – ela murmura, e logo em seguida sugere – “Podemos voltar a caminhar, ao menos?”
Ele faz que sim, mesmo sabendo que se entrassem naquela estação, nada mais seria o mesmo. Marcelo estava sendo dramático? Estava, mas quem não é, quando se trata de coisas do coração?
“Bem, enquanto você não acha as tais palavras certas… Você sabe a espécie de pingüim que comentei? Então, ela—”
“O que está acontecendo com você?” – Marcelo volta a se aborrecer.
“Comigo?” – Bianca não entende.
“É.”
“Nada. Você é quem está com dificuldades para falar.” – debocha de leve.
“Não estou com dificuldade alguma.” – ele se defende – “Você é que não me deixa falar.”
“E quando deixei, você ficou mudo.”
“Você não vai conseguir, Bianca.” – Marcelo a encara.
“Conseguir o quê?”
“Mudar o rumo de nossa conversa.”
“Qual conversa? Não quer mais falar sobre os pingüins? Tudo bem, podemos—”
“Não se faça de desentendida, por favor.” – diz sério – “Me refiro à conversa que quero ter com você se não for pedir muito.”
Já estão em frente à estação de metrô. Bianca pára e o observa.
“Certo.” – ela suspira e olha para o seu relógio de pulso – “Você tem cinco minutos.”
“Como é que é?” – Marcelo não acredita.
“Você tem cinco minutos.”
“Que absurdo é esse?”
“Só posso te dar cinco minutos. Se perdermos o último metrô, vamos ter que—”
“Não tô acreditando! Não tô nem aí para isso, Bia!”
“Mas eu estou.” – ela diz encarando-o – “Além do mais, sei sobre o que você quer conversar… E cinco minutos bastam.”
“Com cinco minutos nem dá pra começar!”
“Dá sim. Com dez segundos consigo traduzir tudo o que sei que você quer dizer.”
“Mas…” – fica confuso – “Do que você está falando?”
“Então, com 5 minutos, você e eu economizaríamos tempo e aborrecimentos.” – Bianca não o escuta.
Marcelo fica mudo. Sua força e determinação tinham se esvaído por completo. Realmente seria mais difícil do que ele pensava…  Claro, nada com ela era fácil.
“Vamos. Seu tempo está acabando. Agora, você só tem três minutos.”
Bianca o olha fixamente, esperando pacientemente Marcelo se manifestar nos minutos restantes, mas ele se mantém quieto. Pensava em como traduzir tudo o que sentia em míseros 180 segundos.
“E então?” – pergunta quando o tempo acaba.
“Deixa pra lá.” – dá de ombros e completa desanimado – “Vamos logo pra não perdermos o último metrô.”
Bianca se limita a acompanhá-lo.

[ altista blasé ]

Postado em Diálogos em Março 27, 2009 por Gleice Couto

Uma provável conversa que deve ter rolado entre Morten, Magne e Paul do a-ha (em minúscula mesmo) antes de decidirem vir ao Brasil…

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Morten espera seus dois amigos e companheiros de banda em casa para uma reunião que marcara às pressas. Isso porque teve uma idéia fantástica (em sua opinião) na calada da noite. Como ter idéias que não sejam relacionadas à troca de seu guarda roupa costumam ser esporádicas, estava ansioso e tinha pressa. Para aliviar a tensão enquanto seus amigos não chegavam, aproveitava o tempo ocioso para admirar seu reflexo no espelho. Vez por outra fazia poses e sorria para si mesmo. Bizarro.
- Você é estranho! – Paul fala assim que vê o amigo.
- Mais que o Paul, até. – Magne completa.
Morten leva um susto.
- Ow! Vocês são ninjas? Entraram como?
- Interfone. Porta. Você. Espelho. Igual a atenção zero. – Mag explica.
- Ahn?
- Abstrai.
- Tudo bem, não importa. – deixa pra lá, não entendeu mesmo – O fato é que tive uma idéia muito boa essa madrugada.
Os dois esperam apreensivos.
- ‘Bora fazer uns shows no Brasil! – fala com um sorrisão de orelha a orelha.
Magne e Paul continuam olhando para o amigo com cara de demente, esperando continuação da tal idéia brilhante.
- O que acham?
- Acho ótimo, mas o que isso tem a ver com o seu insight? – Mag ainda tinha esperança.
- Esse é o meu insight. – Morten ainda sorria.
Magne olha para Paul pedindo socorro.
- Ok, Morten… – o mais sensato entra em ação – Isso nem chega a ser uma idéia, porque Brasil é o nosso quintal praticamente. Mas… Ahn… Como vamos fazer shows lá? Nem estamos em turnê, nem temos músicas novas, nem temos músicos de apoio, nem estrutura, nem—
- Você é muito pessimista, Paul! Veja bem… – se empolga – Não precisamos de músicas novas pra fazer show lá, podemos tocar as mesmas músicas de sempre, com exceção de Touchy e You Are The One, por favor. Não precisamos de muitos músicos de apoio, basta um baterista e um outro carinha com quatro laptops que damos um jeito. Além disso, meus falsetes garantem o show e, na ausência de voz, o megafone dá conta do recado. E pra que estrutura? Podemos aproveitar umas imagens de YouTube mesmo, com baixa definição. As pessoas vão lá para nos ver! O importante é o nosso carisma no palco!
- Nosso carisma? O meu, você quer dizer, né? Porque tanto você e o Paul não falam um ‘ai’ com o público.
- Eu não tô lá pra falar, sou guitarrista. – Paul se defende.
- Claro que eu falo com o público! – Morten também tira o seu da reta – Comunicação não-verbal, mas visual, entende? Cada sorriso meu, cada passada de mão no cabelo, cada ajuste no ponto no meu ouvido, cada quebrada de cintura… É um ‘oi’ para eles, percebe?
- Não, não percebo. Acho que nem eles percebem. Na verdade, no palco, você parece um altista blasé.
- Mas—
- Tudo bem, Morten. Liga não. ‘Bora pro Brasil assim mesmo… Sem músico, sem estrutura, sem produção e sem carisma, porque o que nos sustenta é a nossa música mesmo. – Magne sorri confiante.

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Quero deixar claro que a-d-o-r-e-i o show e que isso não é uma opinião negativa, apenas bem humorada! É que meu lado crítico às vezes se sobressai! ;o)

E a descrição perfeita do Morten de ‘altista blasé’ é de autoria de Luciana Freitas. Hahaha