“Ops!”
Acho que te acertei. Foi sem querer. Talvez. A palma da mão está suada, meus finos e longos dedos escorregaram e…
“Bang!”
O corpo pesado encontra o chão em câmera lenta, quase estrategicamente. A poeira sobe dançando com o movimento repentino.
“Atchim!”
Minha mente se antecipa e já imagina a linha amarela fazendo o seu contorno, com fitas zebradas interditando o local. Um pano preto te cobria, policiais reviravam as gavetas e cômodos. Em um canto, eu me via feliz. Algemada.
Balanço a cabeça e páro de idealizar o futuro do pretérito, pois o presente diante de mim era outro. Enquanto o sangue grosso e quente escorre pelo carpete também vermelho, o reflexo no espelho me encara e sorri. Retribuo.
Você foi atingido por uma garota má.
Sem cuidado, ajoelho-me e procuro a pulsação. Acompanho, por uma volta completa, o ponteiro dos segundos do relógio. Não tinha o que contar.
Levanto-me cambaleando e…
“Tick! Tick!”
O gatilho trava. Droga!
“Tick! Tick!”
De novo. Ugh!
“Bang! Bang!”
Fragmentos do espelho espalham-se como gotas de chuva borrando o sorriso.
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[ bang! bang! ]
Postado em Prosa em Agosto 10, 2009 por Gleice Couto[ múltiplo-quarto com camas desarrumadas ]
Postado em Prosa em Julho 1, 2009 por Gleice CoutoSeja bem vindo ao meu quarto e sala. Não tente entender seus poucos cômodos. São pessoais, não-uniformes e difusos. As nuvens escuras não decoram o teto, nem são feitas de tinta. Chove de verdade aqui dentro. Enche e transborda. Enxurrada de sinceridade. Não me afogo, mas me esfrio. Estremeço. Acho que é o medo chegando novamente. E então, após a tempestade, as folhas no chão – escorregadias sob meus pés – encontrarão seu caminho pelo rio que escoa no corredor. E quando a garoa diminuir, a sombra gélida que reflete na parede se encontrará com o sol à leste, além da janela. Mas enquanto isso, faço e me desfaço em imperceptíveis partes desiguais. Incapazes de formar um todo… Sem seqüência fonética… Sem razão lírica… Apenas completando os ladrilhos imperfeitos da sala. Eu, um múltiplo-quarto com camas desarrumadas estou presente e inexistente na variedade de espaço… Vazio – interrogações apenas em forma de mobília antiga. O eco do meu soluço que ainda não passou pela garganta, ganha vida, cresce. E tudo volta a fazer sentido por cinco segundos. Quatro… Três… Dois… Um… Contagem regressiva para o mesmo começo. Pura simples vida. Talvez se eu mudasse os móveis de lugar… É por isso que moro aqui. Preciso me deslocar. Ajuda-me? É por isso que você está aqui. Expectador da minha única reforma desconfortável, faça mais do que me observar, me experimente, sou sensorial.
[ seis portas ]
Postado em Prosa em Junho 19, 2009 por Gleice Couto Sinto pinicar o chão frio por debaixo de minha calça fina. O modo como estou sentada me traz desconforto – minhas pernas cruzadas formigam; meus braços, enlaçados a elas, começam a ficar doloridos. Já estou nessa posição há bastante tempo. Ela não muda.
Respiro com cuidado e me encolho mais um pouco. A temperatura não estava baixa, mas meu corpo reagia a estímulos que vinham de minha mente já congelada. Conceitos paralisados no meu tempo estático.
A sala branca… Ampla… Iluminada… Limpa… Não me era mais estranha. Conhecia cada detalhe seu, cada defeito em sua parede irregular. As muitas portas que faziam parte daquele ambiente eram imponentes. Altas… Lisas… De madeira, mas pintadas de branco… E cada fresta… Cada farpa mal coberta pela tinta era perceptível pros meus olhos já acostumados com elas.
Eram seis. E todas estavam fechadas. Nunca as abri. Nunca me permiti sequer tocá-las. Somente posso usar uma e não sei qual. Escolhas são difíceis para mim. Por isso, apenas observo… Examino atentamente… Enquanto os ponteiros do meu relógio já gasto continuam a funcionar.
Então, tudo o que sempre existiu entre nós foi espaço. Apenas ar. Rarefeito… Ele falta no último suspiro. E não me reconheço mais. A dor chega lancinante enquanto projetam-se cenas do roteiro da vida que, por medo, não escrevi.
[ boas lembranças ]
Postado em Prosa em Junho 16, 2009 por Gleice Couto Saudades das pessoas queridas que por algum motivo não fazem mais parte da minha vida. Hoje pensei nelas. Por outro lado, também me lembrei das idiotas que estão presentes. Mas nessas não perdi muito tempo. Preferi continuar pensando nas que não mantenho mais contato e que foram especiais.
Ana Paula era uma menina esquisitinha que sentava no fundo da sala. Não sei como, nem porque, mas começamos a nos falar. Acho que os esquisitos se atraem. Era uma pessoa calma, paciente… Exatamente o oposto de mim. Mas concordávamos em muito mais coisas. Ok, tá certo que meninas de 12 anos têm geralmente os mesmo pensamentos… Meninos e… Meninos. Éramos apaixonadas pelo Geovane do vôlei, comprávamos revistas sobre ele e até matávamos aula pra ficar jogando! Depois, conhecemos o Bon Jovi e fomos obrigadas a trair o Geovane. Coração volúvel desde tenra idade. Também comíamos bala Frumelo escondidas no banheiro, devorávamos os livros da Agatha Christie, choramos na morte do Senna… Ela ia lá casa pra comer o bolo de chocolate da minha mãe e eu ia pra dela pra comer a carne com milho da D. Rose, sua mãe. Delícia! Convivemos quase que diariamente por mais ou menos 6 anos… Mas aí, cada uma foi viver sua vida… Diferente e distante… Mas ainda hoje, nos raros encontros que temos, é como se nada tivesse mudado.
A equipe da Aky Disco era um grupo completamente heterogêneo. E eu adorava isso! Eu era a ‘baby’ com meus 18 anos recém completados e no meu primeiro emprego em meio a ‘adultos’ loucos – por música e de verdade mesmo. Dudu, Renato, Lópes, Móises, Luciane, Cristiane e mais uns outros chatos (nem tudo é perfeito…) nos divertíamos ao invés de trabalhar. Tudo era motivo pra risada em meio ao estresse de se trabalhar em uma loja de shopping… Chegar mais cedo em pleno domingo pra fazer contagem de estoque, trabalhar 12 horas em alguns feriados, escutar sambas-enredo por horas durante o Carnaval e Roberto Carlos no final do ano… Mas também tudo era motivo pra bagunça. Opa! Ganhamos ingressos do show case do M2M (Socorro!!!). ‘Bora? Bora! Opa! A Warner liberou ingressos pro Rock In Rio! Partiu? Partiu! Opa! A Ticketmaster dá dando cortesia pro Eric Clapton. Já é? Já é! Até comer churros no ponto de ônibus era diversão garantida pra gente… E então, cada um foi pro seu lado. Outros cargos, outros empregos… Até a loja fechou.
Rodrigo era um menino tão doce… Sincero, tímido… Com um sorriso aberto. Sua mãe era tão simpática quanto ele… E era bailarina! Linda! Ele foi a primeira amizade que fiz na faculdade. Lembro que em uma aula de Sociologia, o professor fez a turma sentar em roda e pediu que cada um pegasse uma moeda. Em certo momento, a pessoa teria que dar a sua moeda para outra e dizer o porquê. Na vez dele, ele levantou foi até mim e disse que estava me dando por eu ser a primeira carioca que ele conseguiu fazer amizade – ele era do Espírito Santo. Na minha vez, dei o troco, claro. Nessa mesma matéria, muitas aulas eram filmes… E em todos, ficávamos no fundo da sala fazendo de tudo… Brincando de jogo da velha, forca, adedanha… Menos prestando atenção. Apesar de ele fazer Jornalismo, queria ser empreendedor imobiliário, por isso mudou de curso e foi pra Administração. Enquanto que eu mudei de turno, e da tarde, fui pra noite. O contato se perdeu…
Felipe falava pelos cotovelos e contava piada como ninguém. Tinha porte, era bonitão, parecia galã de novela. E na verdade, depois fui saber, que era isso o que ele realmente queria ser: ator. Um dia, durante uma aula de Economia, ele puxou papo comigo perguntando se eu tinha o conteúdo das aulas anteriores. Descobrimos que fazíamos outras matérias juntas… E daí começou uma amizade. Em meio a trabalhos em grupo e saídas pra baladas formávamos uma dupla e tanto. Por falar em saídas… Algumas foram memoráveis. Para o bem e para o mal. Ele tentou me ensinar a dançar forró, eu vomitei o carro dele todo, distribuímos açúcar no show do Jota Quest (???), puxamos trenzinho de funk no meio da pista de dança… Tínhamos uma cumplicidade que poucas vezes experimentei com outra pessoa. Mas aí, nossos objetivos começaram a mudar… Ele mudou. Eu mudei. E assim acabou uma amizade.
Além dessas, tiveram tantas outras pessoas que eu queria que ainda fizessem parte do meu mundo… Sílvia, Gigi, Ivan, Frederico, Mariana, Sandra, Joyce… Mas sei que as coisas são assim mesmo… Algumas pessoas vão, outras ficam. O ruim é pensar que algumas queridas hoje, um dia irão… Mas tudo bem, elas sempre deixam um pouquinho delas conosco. Nem que sejam boas lembranças.
Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações. [ Vinícius de Moraes ]
[ paradoxo ]
Postado em Prosa em Maio 4, 2009 por Gleice CoutoSou um paradoxo de sentimentos retalhados. Metade tristeza, metade alegria. Ingredientes que resultam em rendição incoerente medida em pequenas porções. 1/4 de colher, 1/3 de xícara, 1/2 vida. Culpo-me por me sentir bem, confio desconfiando, sou sincera usando máscaras. Então, quando páro e respiro você, descubro que a minha certeza é permeada por dúvidas e que até a minha repulsa é envolta por amor.